Um artigo meu publicado no Blog Versos de Fogo e Pedagogia da Coragem
É frustrante dar aula para as crianças de hoje. Elas estão completamente alienadas, desfocadas, agitadas, não conseguem compreender limites, incomodam-se umas com as outras o tempo todo, incomodam-se consigo mesmas, fazem birra — birra consigo mesmas, birra com os outros colegas —, brigam e birram com os professores. Estão agitadas, nervosas, arredias.
Isso é culpa das crianças?
O açúcar que elas consomem e a quantidade de horas que ficam diante das telas provocam grande parte dessa ansiedade, mas os conservantes, o açúcar e a grande quantidade de telas que seus pais consumiram antes de as gerarem, enquanto as criavam, e agora também contribuem para essa ansiedade.
Nunca se falou tanto em ansiedade. Talvez seja o mal do século, ao lado da depressão.
Mas talvez o mal do século seja o espelho de Narciso em sua mão.
O novo espelho de Narciso é este celular, que espelha para você apenas aquilo com que você se identifica, aquilo de que você gosta, aquilo que você ama, aquilo que você quer. Ou seja: espelha o que você é.
Seja violência, seja partido político agressivo, seja partido político mentiroso, seja partido político superpacifista, seja o político salvador, seja a cantora da moda, o relógio da moda, a roupa da moda, o cabelo da moda, o que for.
Os pais esqueceram de criar seus filhos.
E os professores?
Alguns também são pais, alguns também são ansiosos, alguns também são viciados em telas, alguns também são viciados em açúcar, alguns, se não todos, também ansiosos e depressivos.
Como resolver essa situação?
Um meteoro de conhecimento?
A descida de Cristo das nuvens?
O Pentecostes da pedagogia?
A volta à leitura?
O que precisa mais, depois de uma pandemia global, para que a sociedade acorde, dê as mãos, se una para construir o futuro?
O que mais precisa acontecer?
Guerras?
Morte de mulheres grávidas e doentes em hospitais por conta das bombas?
Mais ilusão de acreditar que o petróleo é necessário?
Em plena era da energia solar e da inteligência artificial, somos cada vez mais burros, mais agitados e ansiosos.
E a nossa dívida com as crianças?
Notem que temos uma dívida com a humanidade, com o povo preto, com a mulher, com os gays, com os povos originários, mas este é outro assunto.
Voltemos.
A nossa dívida com as crianças só aumenta, porque a nossa dívida com a nossa criança interior também só aumenta.
Claro que uma sociedade agitada vai fabricar crianças agitadas.
Claro que uma sociedade feita de gente fabricada, de replicantes, fabricará replicantes: bonecos, androides, bonecos, marionetes de fios invisíveis — fios invisíveis do marketing, fios invisíveis do desejo contínuo de ter, ser, aparecer, ganhar.
Depois de uma pandemia, volto a dizer: o que mais precisa acontecer para que a gente dê as mãos e cuide do planeta?
Toda voz que surge hoje parece que está querendo voto.
Toda voz que surge parece que quer palco.
O que devemos fazer?
Ah, aquele meteoro de conhecimento.
Ah, aquele Pentecostes da pedagogia.
Ah, a descida do Cristo em escadinhas de nuvens fofas.
Cadê?
Primeiro, ele tem que voltar dentro de você, que fala tanto dele.
É, realmente, esse mundo e este diagnóstico parecem pessimistas, parecem nada acadêmicos, mas deveriam ser muito lidos.
Modéstia à parte, foi muito bem pensado.
E não só por mim, que o escrevo.
Foi conversado com professoras de diversas idades, pelos corredores da escola, quase em cochicho; pelas escolas onde dei aula; CRAS, assistência social, CAPS, projetos de cultura; pelos meus 27 anos de magistério e pedagogia, mesmo que tendo me formado apenas há cinco anos.
Três anos?
Nem me lembro.
Filho, sobrinho de professor, professorzinho é.
Até que um dia, depois de tanto pessimismo, ao ver aqueles zumbizinhos, aqueles agressivinhos, iguais ao filme Exterminador do Futuro — peguem a referência quem tiver mais de 37 —, Eu entendi:
Eles precisavam de espaço para se expressarem, para gastarem energia, para se conhecerem.
Eles precisavam e precisam de espaço, de gastar energia, de se conhecerem.
Eles precisam jogar para fora aquela luta que vivem em casa, aquela dor que ganharam dos pais e à qual ainda não sabem dar nome, nem sabem que ganharam dos pais aquilo.
Eles precisam de um pouco de desregra.
Eles precisam de um pouco de correr para lá e para cá e machucar os joelhos.
Eles precisam de um pouco de pôr as mãos e os pés na terra, sim.
Por isso eu acredito no ensino integral, mas não obrigatório, porque nada deve ser obrigado.
Por isso a gente precisava tanto de mais verba para educação e menos verba para deputado, senador e aposentados das Forças Armadas e seus eternos, eternos herdeiros de aposentadoria.
Por isso a gente precisava do tal meteoro de conhecimento, do tal Pentecostes da pedagogia, da tal volta do Cristo, nem que seja dentro de cada um.
Ou do Buda, ou do Oxalá, ou da iluminação, do pajé, do saci.
Mas que a gente deixasse essas crianças viverem.
E que a gente tivesse um pouquinho de coragem de tirar, nem que fosse, 30% do açúcar, 30% da tela e 30% da dor que damos a elas; 30% da culpa que a gente põe nas costas delas e na conta delas, para que elas vivam os erros delas e, portanto, o aprendizado delas.
Biu Oliveira

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